há quanto tempo não tem um post que preste nesse blog...
tem coisas que vão se perdendo sem a gente controlar muito bem, sem querer
a coisa da escrita foi indo assim, para além das razões claras de não estar lendo literatura por esses ultimos tempos.
Não tem sido ruim: as coisas tem seus tempos
(e cheiros, gostos, sons)
não sei se esse espaço terá vida de novo.
Mas ficará marcado pra sempre
como o público que mesmo ausente aplaudiu os meus versos geniais.
(sempre achei que tinham coisas legais nos versinhos...)
a vida segue e eu vou aprendendo o significado do tempo. o único que não posso dominar.
Pedro
posted by PEDRO CAZES 00:35
convergência em São Paulo
estúdios e belas
vozes e vanguardas, todos lá
até motel de madeira tem...
Tempos de internet: daqui assistimos, provando da distância, da diferença.
O Rio de Janeiro parece viver meio morto, preso entre a aura meio decadente de ex-centro, do passado glamuroso, e a maresia inebriante que afaga as regurgitações da alma parada.
O Rio de Janeiro não mais se encontra, perdeu lugar no tempo.
Vive de alguma forma como objeto (de turistas, ou artistas em fim de carreira), não mais como Sujeito... A cidade vive retalhada mesmo, nãotempo um outro ponto de retorno das frustrações recalcadas (tipo uma "virada cultural").
O Rio de Janeiro perdeu lugar no Brasil que se moderniza, no Brasil dos festivais de rock no cerrado, no Brasil descentralizado, mais plural e menos visível, mais diluído por aí, pela rede.
São Paulo sempre foi o centro que não é centro, foi acostumando-se a lutar pelo lugar, a se sentir capaz de inovar, trazer o novo e etc.
O Rio vivia no costume, mas lhe tiraram o chão quando se afundaram as décadas do cinema-novo. O Los Hermanos foi a ultima coisa carioca a ganhar o Brasil, não à toa foi algo messiânico.
posted by PEDRO CAZES 13:55
Sufjan Stevens: como ser verdadeiramente cristão hoje em dia
Faz pouco tempo que fiquei conhecendo um jovem artista americano que faz canções alternativas utilizando muita sobreposição e repetição de temas em espirais hipinóticas que levam a música pop à um patamar diferente, uma espécie de terapia emocionalmente convulsiva. Uma das primeiras coisas que ouvi dele foi uma música, levada no violão e piano, mostrada por um grande amigo que lá pelo meio da música solta:
- pô vc sabe sobre o que fala essa música?
Eu ouvia num inglês meio gemido uma música certamente de amor.
- é sobre um famoso serial killer dos Estados Unidos chamado John Wayne Gayce Jr. Ele demorou muito tempo pra ser pego pois era uma pessoa perfdeitamente normal, um cidadão médio que escondia suas vítimas debaixo das tábuas de madeira da casa. A letra fala sobre sua vida...
A letra não é um passeio ongueiro pelas razões sociais que explicam o coitado do homem, no melhor estio sociologista... Não! São colocados lado a lado as pancadas que levava do pai numa família desestruturada e as vítimas com seus carrinhos de brinquedo que escondia sob as tábuas. São colocados em paralelo o horror e o comum, a letra não nos poupa e o narrador não é um frio cientista social explicando as razões para tal coisa, ele interrompe a narrativa gemendo
posted by PEDRO CAZES 12:24
reis viram santos e vice-versa
já diria aldir:
quem ri melhor ri impune!
posted by PEDRO CAZES 01:44
Em agosto de 1989, numa noite peculiarmente gelada para o Rio de Janeiro, estava ele sento no chão encarpetado às 00:50. Domado por uma sensação de impotência, de mangas compridas percorria parado o chão, absorto, transportado para algum lugar. Talvez pensando na filhinha, sem conseguir imaginar direitos os problemas por vir. O sono da casa em Copacabana, o frio da brisa do mar de inverno, fazia-lhe lembrar da juventude no Sul. Dos tempos distantes, sentia inveja (estática) e não nostalgia. Talvez estivesse pensando em como se virar pra arranjar grana suficiente. As perspectivas faziam tremer, ainda mais num momento daqueles...
Sentado, prostrado, as costas de um velho, tinha 40 anos e uma barba espessa. Os cabelos começando a rarear, os efeitos do whisky na madrugada, vasculhando coisas, nas caixas, nos papéis. Impostos, declarações. Como será que uns agentes federais o viam? Um sujeito feliz certamente. Mora na quadra da praia, nos fundos, Copacabana já entrada na fase de decadência. Família comum, um ex-casamento, parentes distantes. Um eterno deslocado, um sem-lugar, sem pátria, um desgarrado. No olhar que surgia sobre a barba via-se alguém que não tem nada a perder, que fez assim sua vida, meio livre, meio solto, meio perdido. Também não ligava pros porteiros comentando com os jornaleiros sobre seu sotaque, seus hábitos, seu acordar tarde e sairde casa quando todos estão no trabalho. Naquela época ele saia mais de casa, não tinha pego tão forte esse ser de árvore, estacionado numa cadeira. Gostava de sentar no chão, ainda não havia computador, e a máquina não tinha atração especial, era banal. Saía de casa e rumava para o centro. Andava pelas ruas cheias, os prédios altos, as obras... Milhares deguimbas de cigarro, milhares de papéis picados, anúncios, vozes em microfones... Alheio, caminhava solto, blindado pelo ar, era como se fosse feriado, e a única coisa a percorrer as ruas do Centro fosse um vento de rodamoinho.
Sentado, sofria com a impotência de não poder controlar o acaso, coisa de genes, sofria por se sentir injustiçado, nada tinha feito, até ali ia tudo bem. Por que a vida dá essas rasteiras? Ao olhar para o corrdor e ver a porta do quarto entreaberta, previu o ressonar da respiração da mulher adormecida. Por que ela? Será que estava distraído, carente no dia? Quanto tem que se pagar pelos erros da distração?
Na dormência das pernas pesadas, um gigante custa caro parado. Ele se alimentava dos restos de sua auto-confiança. Perdido, nunca perdera a pose de durão, das coisasque aprendeu quando moleque. O que ele havia perdido era a vontade, o desejo de qualquer coisa.
posted by PEDRO CAZES 01:12
que no fundo da minha integridade tem a inveja
a verdade da minha segurança é o arrependimento
a temperatura da minha calma fala do abafo
do sufoco dissimulado:
no fundo das certezas tem o mesmo perdido do começo.
posted by PEDRO CAZES 00:58
o oceano
é feito todo de uma
água grossa
uma água-pedra azul
algum diamante vulgar
vendido sob o sal da maresia
ainda em estado bruto:
o mar ainda não foi lapidado (domado).
Dessa solidez vê-se na impossibilidade de o penetrar
na possibilidade de caminhar sobre ele,
com proximidade,
sem entretanto o conhecer
prever
o oceano vive muito bem sem nós
ele é imenso
é quase tudo,
e fala de um vazio chamado horizonte
total.
posted by PEDRO CAZES 00:55
trago
fins
de outono
posted by PEDRO CAZES 00:32
a melodia muda percorre
sertões
atravessa o ar seco da noite
ecoando o silêncio lá de longe
eu continuo ouvindo a tevê,
ou os gritos
a intensidade gira em vão na minha cabeça:
tento mas não consigo ouvir o som da goteira da pia.
posted by PEDRO CAZES 00:31
música sem palmas
o vibrafone
toca com órgãos de sonho
tem relação infantil, de tato:
não merece o ataque ponti-agudo das palmas ao final.
posted by PEDRO CAZES 00:47